Ana Santiago entrevista João Abreu (VIPP Expresso)

Datas: 04/12/2011

João Abreu

CVR: ferramenta de marketing intra-pessoal

A CVR – Carta de Vida Relacional é muito mais do que um tradicional C.V., pode funcionar como um bom exercício de auto-conhecimento individual e coletivo, capaz de apontar novos caminhos para o desenvolvimento pessoal e organizacional.

Dado o seu potencial, decidi entrevistar o autor deste conceito, João Abreu, Professor Universitário desde 1993 e Fundador da Academia das Emoções .

Ana Santiago – O que é a Carta de Vida Relacional (CVR)? Uma ferramenta de auto-conhecimento ou mais do que isso? 

João Abreu – É um instrumento de auto-conhecimento, baseado na análise das competências, das insuficiências, intolerâncias, valores, interesses e paixões, podendo ser aplicado individualmente ou para organizações. Serve, desta forma, o autoconhecimento individual ou corporativo. É um elemento informativo de grande apoio às dinâmicas de grupo e aos processos de motivação e construção de equipas de trabalho.Na Academia das Emoções, estamos a desenvolver um programa para as Escolas, Politécnicos e Universidades, designado “NOVA MENTE”, que integra a CVR como resposta a uma de várias grandes questões: Onde Estamos? Quem Somos? (CVR) O que podemos fazer? O que queremos? O que fazemos? Desta forma, qualquer pessoa pode identificar problemas, necessidades, as suas forças e fraquezas, os constrangimentos da envolvente, para depois definir objectivos, medidas e ações a desenvolver num dado quadro cronológico e orçamental.  

Ana Santiago – Como deverá ser construída a CVR? Poderá ser feita por qualquer pessoa ou requer a ajuda de um/a profissional? 

João Abreu – A CVR é composta por seis variáveis relacionais. Nas duas primeiras, competências e insuficiências, faz-se uma adaptação da teoria das múltiplas inteligências, permitindo que se construa, posteriormente uma base de conhecimentos, outras habilidades e atitudes e, ainda, um vasto campo de melhorias individuais e colectivas. Nas intolerâncias e valores, avaliam-se os princípios que permitem a construção da missão da organização, a sua cultura de relacionamento. Nos interesses e paixões, avaliam-se os dados mais próximos relacionados com carreira, empresa, sector, dados financeiros, por um lado, mas ainda os relacionados com o lazer e bem-estar, afectividade, tempo, mobilidade, diversão, sonhos…A CVR é, acima de tudo, um instrumento de auto conhecimento, de marketing intra-pessoal. Entendo ainda que pode transferir-se para a esfera da equipa, do departamento, da empresa, exigindo uma adaptação de conceitos e aplicações, em ordem à construção de uma parte da SWOT organizacional. Todos os profissionais que desenvolvam uma atitude “coach” podem ajudar na sua aplicação, não é um exclusivo de uma ou outra área académica de formação. Valoriza-se muito a experiência, a vivência.  

Ana Santiago – As insuficiências e as intolerâncias são aparentemente dois pontos críticos da CVR. As pessoas que passam por este processo reconhecem-nas com facilidade?  

João Abreu – Não sendo fácil esta abordagem, pugnamos pela sensibilização para estas questões. A sistematização ajuda na compreensão dos nossos pontos mais fracos. Obriga-nos a levantar situações, a descrever cenários, a reescrever histórias passadas. A CVR é uma espécie de “outro lado”, de sombra do CV, daquilo que não se depreende facilmente. Mas lida com a atitude construtiva, daí falar-se de insuficiências e não de incompetências. Há caminhos ainda a percorrer, mudanças a conquistar, em torno de objectivos de vida bem delineados. Aplica-se muito a jovens que se encontram numa fase de pré-ingresso no mercado de trabalho. Tal como numa organização, também cada um de nós deve perceber quais os problemas, objectivos, medidas, para poder criar o seu plano de ação.   

Ana Santiago – Em que medida é que a Carta de Vida Relacional poderá facilitar o processo de contratação de colaboradores? Poderá esta ferramenta substituir o curriculum vitae? 

João Abreu – Como vimos atrás, não creio que substitua, mas complementa. É importante, por exemplo, que quem contrata, saiba qual o nível de domínio das línguas de um candidato, mas também as suas viagens, as suas leituras, as suas preferências musicais, os seus filmes de eleição. Para além do técnico, contratamos a pessoa. E essa tem um potencial de outras habilidades e de atitude que ultrapassa o sentido, tantas vezes demasiado objectivo, do CV. Será uma espécie de CV anotado, comentado, referenciado. Diria mesmo, um CV com pessoas e histórias dentro. Numa fase em que contratamos pessoas resilientes, “networkers“, boas gestoras do tempo, adaptáveis à mudança a ao trabalho em equipa, a CVR parece importante.  

Ana Santiago – De que forma poderá um gestor de equipas de trabalho usar a Carta de Vida Relacional?

João Abreu – Costumo dizer que um grupo se compõe de Desistentes, Resistentes e Resilientes. Há quem divida os grupos em membros de cores diferentes, fazendo coincidir um determinado tipo de comportamento em grupo com essas cores. Mas o objectivo de aplicação da CVR é que o grupo se transforme em equipa, que se estabeleça uma cada vez maior e melhor comunicação de coesão. E isso consegue-se pelos referenciais, pelos pontos de acordo mínimos que identificamos e potenciamos, muitas vezes a um nível quase sensorial. Se o CV é um objecto competitivo, a CVR é um objecto colaborativo.

João Abreu

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